
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
(FERNANDO PESSOA)
Um dia, lá por volta de 1983 ou 1984, fui a uma locadora de vídeo em Fremont. Estava olhando a seção dos westerns quando um sujeito parou ao meu lado, tomando uma Coca-Cola em um copo 7-Eleven. Apontando para Sete homens e um destino, perguntou se eu já tinha visto aquele filme.
- Já – respondi. – Treze vezes. Charles Bronson morre no final, James Coburn e Robert Vaughn também. – Ele me olhou de cara amarrada, como se eu tivesse acabado de cuspir no seu refrigerante.
- Muito obrigado, cara – disse o sujeito, e foi embora abanando a cabeça e resmungando alguma coisa. Foi aí que aprendi que, nos Estados Unidos, não se pode revelar o fim de um filme e, se você fazer isso, vai ser tratado com despreza e obrigado a pedir perdão por ter cometido o pecado de “estragar o final”.
Já no Afeganistão, só o final importava. Quando Hassan e eu voltávamos para casa, depois de ter visto um filme indiano no cinema Zainab, o que Ali, Rahin Khan, baba ou o monte de amigos dele – primos de segundo e terceiro graus que entravam e saíam lá de casa – queriam saber era se a mocinha conseguiu ser feliz. O bacheh do filme, o galã, se tornou kamyab e realizou os seus sonhos, ou estava fadado a ser nah-kam, a mergulhar no fracasso?
Tudo o que queriam saber era se o filme tinha um final feliz.
Se alguém viesse me perguntar hoje se a história de Hassan, Sohrab e eu tem um final feliz, não saberia o que dizer.
Alguém sabe?
Afinal de contas, a vida não é um filme indiano. Zendhi migzarra, como os afegãos tanto gostam de dizer. A vida continua, sem se preocupar com os começos, finais, kamyab, nah-kam, crise ou catarse; apenas seguindo em frente, como uma caravana de kochis, lerda e empoeirada.
Eu não saberia responder a tal pergunta. Apesar do minúsculo milagre que aconteceu domingo passado.
(Trecho do Livro “O caçador de Pipas”)
“Se alguém viesse me perguntar hoje se a (nossa) história tem um final feliz, não saberia o que dizer. Afinal de contas, a vida não é um filme indiano. A vida continua, sem se preocupar com os começos, finais, kamyab, nah-kam, crise ou catarse; apenas seguindo em frente, lerda e empoeirada.
Eu não saberia responder a tal pergunta!”
O livro ao qual eu extrai o trecho acima nos mostra um fim de incertezas. O narrador em 1ª pessoa não sabe definir se sua vida e história foi feliz ou não. Vivemos em meio a essas incertezas. Sabemos como estamos agora, mas o amanhã nunca saberemos.
Tudo o que eu sei é que dediquei os meus melhores esforços para que nossa história pudesse ser igualada às grandes obras épicas, que se tornaram imortais, tal qual "Ilíada", "Odisséia e "Os Lusíadas".
Quero que suas pipas voem bem alto, e se eu puder estar ao seu lado, darei linha para que isso aconteça. Caso de longe assoprarei com todo meu fôlego para que ela suba cada vez mais alto. E mesmo de onde estiver te verei e saberei que você está bem e mesmo que sofra estarei feliz. Porque te amo e te quero bem.
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